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Arquitetura para quê?

Talvez você não saiba o nome do arquiteto que projetou o edifício onde vive, mas certamente sabe o nome da construtora estampado na fachada.


Inspirado nas reflexões do arquiteto Flávio Kiefer, talvez seja preciso recolocar uma pergunta essencial no centro do debate: afinal, para que serve a arquitetura?


A resposta parece simples. Precisamos de casas, escolas, hospitais, escritórios, cidades. Mas talvez a arquitetura nunca tenha existido apenas para abrigar funções. Há algo mais profundo nela — algo que antecede inclusive a própria ideia de cidade.


Muito antes da agricultura, antes da propriedade e antes do mercado, a humanidade ergueu templos. Em Göbekli Tepe, na Turquia, há mais de doze mil anos, seres humanos se reuniam para construir símbolos. Isso significa que, antes mesmo de organizar a sobrevivência, organizamos o sentido. Antes da moradia, veio o rito. Antes da eficiência, veio o pertencimento.


Talvez porque sejamos os únicos seres que transformam memória em espaço. Que enterram seus mortos, celebram encontros, constroem monumentos, inventam símbolos e procuram deixar marcas de sua passagem pelo mundo.


Durante séculos, as cidades foram expressão disso. As torres das igrejas, os teatros, os mercados, as praças e os palácios não serviam apenas para “funcionar”; serviam para representar valores coletivos, crenças e visões de mundo. A arquitetura era linguagem cultural.


Mas algo mudou.


Com a Revolução Industrial, a cidade passou gradualmente a obedecer outra lógica: a lógica da produtividade. O espaço urbano começou a ser desenhado para otimizar fluxos, acelerar rotinas e reproduzir capital. A cidade virou engrenagem. E a arquitetura, muitas vezes, virou produto.


É justamente essa inquietação que aparece quando Álvaro Siza afirma que “a arquitetura virou mercadoria”. Porque quando o mercado assume integralmente o comando da forma urbana, o símbolo perde espaço para a planilha. O edifício deixa de ser uma expressão cultural para tornar-se um ativo comercial.


As antigas cidades gaúchas eram reconhecidas pelas silhuetas de suas igrejas. Hoje, muitas cidades são identificadas por uma sucessão de torres residenciais sem identidade, repetidas como embalagens empilhadas no horizonte. Construções que cumprem funções, mas raramente constroem significado.


Nesse processo, a própria autoria arquitetônica foi se dissolvendo. O projeto passou a ser fragmentado entre inúmeros agentes: marketing, vendas, engenharia, consultorias, fornecedores. O arquiteto, muitas vezes, deixou de ser o responsável pela visão do todo para tornar-se apenas mais uma peça do processo produtivo.


Por isso talvez saibamos mais facilmente o nome da construtora do que o nome do arquiteto. A autoria migrou da cultura para o mercado.


E não se trata apenas da arquitetura. O mesmo fenômeno atravessa a música, o cinema, a literatura e tantas outras formas de produção cultural. O que não atende à lógica imediata do lucro passa a ser visto como supérfluo. Museus, teatros, bibliotecas e salas de concerto tornam-se difíceis de justificar dentro de uma civilização que mede valor apenas pelo retorno financeiro.


Mas qual é o lucro de um museu? Qual a rentabilidade de um teatro? Qual o retorno econômico de uma praça capaz de produzir memória coletiva?


Talvez nenhum. E talvez justamente por isso eles sejam tão necessários.


Porque quando uma sociedade deixa de construir espaços de significado, ela passa a produzir apenas espaços de consumo. E uma cidade que não cultiva memória, identidade e cultura corre o risco de transformar seus habitantes apenas em usuários temporários do espaço — nunca em verdadeiros pertencentes a ele.


Fonte de Inspiração e baseado no texto de Flávio Kiefer: https://www.matinal.org/opiniao/arquitetura-para-que/


 
 
 

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